Preso por um crime que não cometeu, Heberson passou 925 dias na prisão e diz ter sido violentado por mais de 60 detentos;
Heberson Lima de Oliveira implorou para não ser levado. Ele dizia que não tinha cometido aquele crime e pedia para que acreditassem nele.
Mesmo assim, em 5 de novembro de 2003, acabou preso em Manaus, acusado de abusar de uma menina de 9 anos.
A prisão aconteceu sem mandado judicial. A ordem de prisão preventiva só seria expedida no dia seguinte.
A menina foi levada para reconhecer o suspeito. Segundo a família de Heberson, quando a delegada perguntou três vezes se aquele era o homem que havia cometido o crime, a criança teria negado nas três ocasiões.
Depois, a delegada teria pedido para ficar sozinha com ela.
Quando retornou, perguntou novamente se havia sido Heberson. A menina teria ficado em silêncio por alguns instantes e, depois de ser chamada pelo nome para responder, balançou a cabeça afirmando que sim.
Foi a partir desse reconhecimento que Heberson acabou preso.
Ele continuou negando desesperadamente a acusação. Dizia que era inocente, mas passou a ser tratado como culpado antes mesmo de ser julgado.
E foi dentro da prisão que, segundo o próprio Heberson, começou um dos períodos mais traumáticos de sua vida.
Por estar acusado de um crime sexual contra uma criança, ele afirma que passou a ser perseguido e violentado por outros presos. Durante os 925 dias em que permaneceu encarcerado, Heberson relata ter sido vítima de violência sexual por mais de 60 detentos.
Ele também afirma que contraiu HIV dentro da prisão.
Enquanto Heberson permanecia preso, sua defesa começou a encontrar inconsistências no processo. Havia contradições nos depoimentos e diferenças entre as características físicas descritas pela criança e as características de Heberson.
Um laudo do IML também ajudou a apontar que ele não correspondia às características atribuídas ao autor do crime.
Depois de mais de dois anos e meio atrás das grades, veio a decisão que mudaria tudo.
Em 17 de maio de 2006, Heberson foi absolvido. O Ministério Público reconheceu que não existiam provas consistentes de que ele fosse o responsável pelo crime.
Mas a absolvição não devolveu os 925 dias que ele havia perdido.
Anos depois, a Justiça reconheceu o direito de Heberson a receber uma indenização pelos danos sofridos. Ele afirma, porém, que nunca recebeu o dinheiro do Estado do Amazonas.
E as consequências daquela prisão continuam até hoje.
Heberson contou que enfrenta câncer de próstata e que precisou passar por uma amputação no pé devido a complicações graves da diabetes.
Ele entrou na prisão dizendo que era inocente.
Saiu 925 dias depois, absolvido e com marcas que, segundo seu relato, carregaria pelo resto da vida: HIV, traumas provocados pelos abusos e as consequências físicas e psicológicas de ter passado mais de dois anos preso por um crime que não foi provado contra ele.
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